Semblanza de Kerouac

Artigo de Nuno G.

O melhor livro de Kerouac foi o primeiro, The town and city.  Nem Tristessa, nem The dharma bums conseguiram atingir a maestria daquele primeiro e desprezado romance do mais importante dos escritores da geração beat. E sim, Kerouac foi o epicentro de todas as turbulências que definiram uma geração literária. Apesar de não possuir a intuição poética de Ginsberg. Apesar de não ter atingido a intensidade callejera de Cassady. Apesar de não possuir a firmeza e a profundidade da ecologia espiritual de Snyder. Apesar de não ter o poder e a desenvoltura de Burroughs. Apesar de não ter praticado lobotomia como Corso. Apesar de não expressar a espontaneidade de Ferlinghetti. Apesar de qualquer outra baboseira que digam por aí, Kerouac foi o criador do espírito beat.

Foi ele que, de maneira visionária, cunhou o termo que até hoje ecoa entre nós. A busca pela beatitude, pela santidade, pela linguagem capaz de encarnar a transcendência do mundo. A obra e a vida de Kerouac foram profundamente marcadas pela égide da descoberta e por uma constante e contínua releitura das tradições.

O budismo, Proust, a filosofia existencialista de Kierkegaard ou as tradições dos ameríndios do norte lidos na estrada, sob o efeito de estupefacientes, entre uma apresentação de jazz e outra. Kerouac, dizem, aprendeu a improvisar com o bebop, mas esse improviso trazia por conteúdo citações e reinvenções das inúmeras fontes onde inutilmente tentava saciar sua sede. O desespero, a angústia e o mal-estar de Kerouac nunca encontrariam solução. Ao contrário do que insistem por aí, Kerouac vivia para escrever. Kerouac viajava para escrever. Kerouac amava e se envolvia com as pessoas que lhe pareciam interessantes para escrever. Não é por outro motivo que tomou para si a missão de biografar a geração que ele mesmo nomeara. E talvez tenha sido também essa a causa das inúmeras rupturas e do isolamento de seus últimos anos.

A renúncia absoluta de Kerouac a aceitar qualquer continuidade entre suas intenções e as revoluções que atravessaram sua vida e sua obra e todo o boom contracultural e festivo que já se anunciava naqueles fatídicos finais dos anos sessenta tinha sua razão de ser. Kerouac, alcóolatra e dedicado a cuidar de sua mãe, seguia sendo o mesmo. Um melancólico, inquieto e ambicioso homem com uma visão poética explosiva e uma curiosidade irrefreável.

A todos os experimentos havia se entregado e a vida seguia sendo sem-sentido e absurda como sempre fora. Havia escrito alguns dos livros mais importantes do século e não havia encontrado nenhum lugar seguro para terminar os dias. A imagem daquele vagão de trem cruzando o vasto e imenso território norte-americano com um jovem obcecado pela idéia de transformar sua própria vida numa obra de arte enquanto dividia uma garrafa de vinho barato com um vagabundo de estrada sob um céu maravilhosamente estrelado resumia muito da busca a qual se dedicou Kerouac. E o sábio solitário pressentia que não havia nada mais distante de tudo isso do que a turba de jovens burgueses e pequeno-burgueses que entediados pelo modo de vida de sua classe social se entregavam a uma orgia de drogas, sexo e vagos espiritismos.

Kerouac seguia sendo um melancólico. Kerouac seguia sendo um perscrutador de todas as tradições que lhe chegavam às mãos. Kerouac se interessava por prostitutas viciadas em morfina e ladrões de automóveis que exalavam amor e desespero. Kerouac foi o primeiro e o último beat de fato. E o seu isolamento e a agressividade das rupturas que marcaram o final de sua vida me parecem muito consequentes com a sabedoria de um indivíduo que, apesar de ter sido o epicentro de toda uma geração, soube permanecer profundamente solitário.

Kerouac viveu para escrever e posso imaginar o asco que sentia quando percebia que seu nome, sua intuição e seu desregramento estavam sendo conectados a uma geleia geral de antenados. Kerouac não era punk como Burroughs. Não era hippie como Ginsberg. Não era zen como Snyder. Não era louco como Corso. Não era vagabundo como Cassady. Não era editor como Ferlinghetti. Kerouac era beat e os beats morreram com ele. Nada mais distante de sua revolução e de suas intenções do que as estúpidas apropriações que dele fazem hoje os cults bacaninhas de nosso tempo.

A contracultura dos anos setenta ainda tinha alma. Ainda havia experiência e descoberta. Mas, talvez, como último gesto profético, o melancólico Kerouac já farejasse nela os germens da decadente cena que hoje insiste em se apresentar como herdeira daquela que foi uma autêntica revolução do espírito e que produziu um dos mais intensos e tensos capítulos da história social da literatura e da arte. Salve Ti-jean! E saiba: sempre haverá alguém compartilhando um vinho barato, cruzando as estradas, olhando as estrelas, indagando o mistério da existência e tentando escrever com o ritmo a pulsação e o sangue da própria vida.

Por isso e por muitas coisas mais The town and city é o mais atual de seus escritos. Um romance raro e precioso sobre a busca solitária e melancólica do ser em direção à beatitude inalcançável, um esporro de lucidez para uma época covarde em que os grupelhos se dividem em bandos e celebram entre si a descartável alegria de egos confortáveis e entorpecidos pelas ideologias fáceis. A vida é um mistério. A literatura é o desespero e o assombro do homem ante esse mistério. O resto é new age e modismos. Jack, descanse em paz.

Todos os textos são de responsabilidade dos autores.

Imagem: Pexels.

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