Quando coloco muitas incumbências no outro revelo meus próprios vazios

Texto de Ana Carolina Ribeiro Ferreira de Brito

O ser humano e as expectativas, uma díade complexa, parceiros inseparáveis. Eles nascem, crescem, envelhecem e morrem juntos.

Desde a infância, nos conta a psicologia, usamos a fantasia como mecanismo produtor de prazer, ao possibilitar realizações imaginárias de desejos que não nos é permitido na “vida real”. Exemplifico: sabe aquela lasanha maravilhosa, sobejando queijo que você está quase que insanamente desejando comer, mas sua dieta insiste em te lembrar que não lhe é permitida? Então lá vêm nossas fantasias de estarmos livremente comendo, de preferência sozinhas (pra não ter que dividir com ninguém.. rs). Ou aquele rapaz que lhe paralisa o fôlego só de lembrar-se do seu sorriso? Se não pode tê-lo “ao vivo”, pode fantasiar encontros lindos e românticos com ele, onde ambos vão tranquilamente e intensamente caminhando pela praça, rindo e sonhando com um futuro perfeito, beirando às vezes a utopia. Cá pra nós, a fantasia é um mecanismo um tanto quanto interessante, pois já que não posso realizar em minha realidade às vezes cruel e injusta, realizo no “campo das idéias”, na qual não preciso nem ao menos sair de onde estou, não dependo de dinheiro e não dependo do outro.

Este texto poderia acabar por aqui, com a seguinte moral da história: então vá lá, fantasie a vontade, use e abuse desta possibilidade, pois é pra isso que ela serve: dar-nos prazer, ou no mínimo nos poupar de um possível desprazer. Mas essa não é minha intenção (apesar de ser tentadora). A idéia aqui é ligar a expectativa, tema com a qual comecei o presente, com essa fantasia. Mas o que elas têm a ver? Atrevo-me a sugerir a seguinte ligação: quanto mais expectativas eu tenho sobre uma determinada pessoa (entendendo aqui a expectativa não como sonhos que cultivo, mas como a espera ansiosa por algo de outro), mais eu me obrigo a fantasiar. Quando coloco muitas incumbências no outro, revelo meus próprios vazios. Espero do outro o que eu não possuo ou não consigo sozinha.

Ahh… então quer dizer que não devo ter expectativa nenhuma? Eu mesmo me basto? Não. Um olhar crítico sobre algo (ou alguém talvez) não significa que devemos extirpá-lo de nossa existência, significa apenas que podemos sempre nos ver e rever e buscar melhorar nossa imensa e única vida. Sinceramente não sei se existe alguém na face dessa linda terra que não possua nenhuma expectativa (caso haja, quero perguntar sobre seus relacionamentos amorosos..rs). O ponto então é o quanto eu coloco de bagagem no outro para me satisfazer. O quanto eu me forço a fantasiar, para dar conta da realização de desejos que o outro “reles mortal” não dá conta. Pois na hipotética e quase “rara” hipótese desse outro não conseguir suprir nossas incontáveis expectativas, há duas possibilidades: frustração ou fantasia. Ou me frustro e vivencio todos os sentimentos que vem junto a ela, ou fantasio (vivo a irrealidade). Não vou falar qual é o certo e o errado, pois isso seria perigoso e até mesmo prepotente. Depende do ponto de vista e da vista do ponto. Cada um sabe onde “o seu calo aperta”. Mas nem por isso os médicos deixam de examinar seus pacientes para confirmar hipóteses de diagnósticos que os próprios pacientes apontam. É preciso repensar nossas concepções. Sabe aquela coisa de reciclagem que aprendemos na escola? Isso não aplica só em garrafas pets ou papel, deveríamos nos reciclar diariamente. Dessa forma, poderíamos nos transformar em “objetos” mais úteis. Menos expectativas, menos fantasias, mais reflexão.

Imagem: Pexels

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