SERIA POR ACASO QUE O PRESENTE TEM ESSE NOME?

Texto de Ana Carolina Ribeiro Ferreira de Brito

Quanto mais vazia está a mochila, mais coisas cabem nela, quanto mais abertos estivermos a questionarmos nossa inflexível e sólida bagagem na vida, mais surpresas e coisas novas poderão nos ser acrescentadas.

Imagine a situação: você está viajando de trem para um incrível lugar, onde a paisagem lá fora é deslumbrante, superando os mais belos quadros de arte ou aqueles filmes utópicos de romance, e nessa viagem você está tão preocupado com a bagagem, com a blusa que colocou, com as mensagens do celular, e mais um milhão de coisas, que acaba não aproveitando a oportunidade ímpar de desfrutar a maravilha lá fora. Mas por quê? Talvez porque você achou que um acompanhante iria ajudar a curtir a viagem, mas esse acabou dificultando as coisas simples. Porque achou que deveria carregar malas demais, quando na verdade precisava apenas de algumas trocas de roupa e alguns salgadinhos. Porque achou que deveria registrar e “eternizar” tudo nas redes sociais e acabou por deixar para os outros (que não tiveram custos nem precisaram sair de casa) a oportunidade de curtir o espetáculo.

Moral da história: chegou ao destino sem curtir o percurso. E assim acontece muitas vezes, não nos atentamos para o hoje porque o nosso foco é no amanhã, pois teoricamente é lá que alcançaremos nossos objetivos, nosso almejado e majestoso sucesso. Afinal, somos cheios de “achismos” e certezas absolutas que não ousamos duvidar, pois elas nos servem de suprimento diário.

Mas ai vem a questão: sabemos tudo na teoria, sabemos o que está errado e o que precisa de mudanças, mas falta apenas um detalhe, pequeno e crucial, que é colocar em prática. Porque temos respostas e soluções para todos os problemas mundiais, para todos os problemas do vizinho, para todos os problemas pessoais, mas ainda sim temos problemas? Talvez seja esta uma das poucas perguntas que não nos atrevemos a responder. Seria o comodismo ou o automatismo que nos persegue diariamente, que, com a prerrogativa de nos poupar de frustrações diárias, acaba nos moldando como robôs, nos usurpando dos presentes que nosso presente tenta nos dar?

Vamos parar nesse instante para um pequeno exercício de memória: o que você almoçou segunda? Qual o trajeto que fez na terça para ir ao trabalho? Qual a última música que ouviu? Relembrar esses fatos talvez não nos acrescente nada de muita importância, mas e questões como qual a última vez que você deu um abraço sincero em um familiar? Ou qual a última vez que dispôs de tempo para conversar com um amigo que precisava de atenção? Ou até mesmo qual foi a última vez que investiu tempo em seu hobby predileto, deixando de lado todos os afazeres e obrigações que nos acompanham diariamente?

Chega de nostalgia. O propósito aqui é a reflexão, o questionamento. Afinal, viver por viver não é assim tão difícil e nem desafiador. Talvez esteja na hora de nos atrevermos a olhar para fora do trem, a beleza de lá talvez nos encante, nos acalme das nossas guerras internas, nos traria paz. Assim não chegaríamos ao destino com a sensação de nem ter visto a viagem passar.

 

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