Hana Brady: O holocausto visto pelos olhos das crianças

por Daniele Abrantes

Uma pequena mala marrom chega ao seu destino em março de 2000. O endereço; Centro Educacional do Holocausto de Tóquio, Japão.

Do lado de fora, lê-se: Hana Brady, 16 de maio de 1931 e, ao lado, Waisenkid (órfã,em alemão).

A partir daí, somos convidados pelo livro, repleto de memórias fotográficas dos breves tempos felizes de outrora compartilhados por Hanna e seus familiares. As fotos, lindas e ternas, que nos comovem, é fruto da incessante investigação pela Europa e América do Norte, da curadora Fumiko Ishioka sobre o paradeiro de Hana.

A história de Hana, no livro, é narrada em dois tempos. Se passa com a invasão nazista a cidade de Nova Pesto, Tchecoslováquia, desde a captura da mãe,Marketa a primeira a

ser levada pela Gestapo, polícia nazista, em seguida a catura do pai, Karel e por fim,a ida dos irmãos Hana e George a Auschwitz, após uma estada na casa de seu tio, Ludovik. Fumiko descobre, junto com o grupo “ Pequenas Asas”, composto por 18 crianças do Centro de Estudos, que Hana era uma criança comum para sua idade. r

Tudo o que ela sentia, transferia para desenhos Alguns deles foram recuperados por parentes que sobreviveram, como seu irmão George,que, aos 72 anos de idade, numa tarde quente de outono em Toronto, Canadá, recebe um envelope de Fumiko, cheio de desenhos de Hana ,e também das crianças do Centro, após averiguar, num documento de checagem de baixa de Theresienstadt, que Hana, havia sido enviada, aos 13 anos, para a câmera de gás,logo após ser separada de seu irmão, deixando-a profundamente triste, tendo como única amiga com quem se identifica,a jovem Ella. O livro descreve os momentos finais de Hana ,passados no dia 23 de outubro de 1944,logo após descerem do vagão do trem e terem sido ordenadas a vagas, em silêncio, passando sob um grande portão de ferro e sob o olhar de homens uniformizados.Hana segurava a mão de Ella fortemente enquanto passavam por grandes barracões tendo,como únicas testemunhas de seus instantes finais, os rostos esqueléticos dos prisioneiros de guerra que espiavam por entre as frestas.

Me emocionei muito com o momento em que Hana toca a mão de George pela última vez,após ele,preocupado com sua fraqueza ,já que a comida era dada em uma única porção ao dia, dá a ela o seu alimento e diz que voltaria para busca-la. Promessa aquela que ela acreditava com toda a força de seu coração, mas que a brutal realidade jamais deixaria se concretizar.

George conta a Fumiko, durante a abertura da Exposição “ O Holocausto visto pelos olhos das crianças” que descobrira a verdade sobre a morte da irmã através de seus tios, em janeiro de 1945,aos 17 anos. Ele conta que sobreviveu por ser forte e que aprendeu a consertar encanamentos. Magérrimo, volta a Nova Pesto de carona, ansioso por notícias da família,ao fim da guerra,em 1945. E lá, perde seu chão ao constatar que sua irmãzinha morrera assim como seu pai, mãe e incontáveis compatriotas. O único bem que George levara com ele pela Europa, aos 17, era uma caixa de fotografias família, guardadas pelo seu tio. Ele abriu uma firma de encanamento, casou-se, teve filhos,tornou-se um bem sucedido empresário e,através de suas memórias , ajudou a uma inteira geração de japoneses, a aprender sobre o Holocausto.

Recentemente, em 2004, em viagem a Polônia, ele e Fumiko descobiram que a mala original havia sido destruída num incêndio criminoso, na Inglaterra de 1984. O museu de Auschwitz criou então uma réplica, que fora a que Fumiko recebera em Tóquio.

O livro “ A mala de Hana”, é lido desde então por milhares de crianças ao redor do mundo, sendo traduzido para vinte línguas.

Uma tentativa de manter viva na memória da humanidade que, embora haja o mal no Mundo, as pessoas que por aqui foram vitimadas por ele jamais serão esquecidas.

Imagem: Google

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