FLAUBERT E SUA MADAME BOVARY

A época exigia romances doces e açucarados, mas a França estava prestes a conhecer um escritor audacioso, inovador e corajoso, disposto a mudar o cenário da literatura mundial e a expor a realidade da sociedade francesa: Gustave Flaubert.

O marco do realismo francês tem um enredo aparentemente simples: o romance conta a história de Emma, uma mulher sonhadora pequeno-burguesa, criada no campo, que aprendeu a ver a vida através da literatura sentimental. Bonita e requintada para os padrões provincianos, casa-se com Charles, um médico interiorano tão apaixonado pela esposa quanto entediante. Porém, a vida para ela era monótona a ponto de nem mesmo o nascimento da filha fazer esse quadro mudar. Emma, cada vez mais angustiada e frustrada, encontra no adultério uma forma de ser feliz ou, pelo menos, tentar ser.

O livro seria, pelo resumo acima, um romance sem grandes expectativas, se não fosse um detalhe: o romance, que demorou cinco anos para ser escrito, foi lançado em 1857, um ano em que os bons costumes eram norteados pela igreja e pela intocável sociedade francesa.

Acusado de ter escrito uma “obra execrável sob o ponto de vista moral”, Flaubert foi levado aos tribunais, mas absolvido pela Sexta Corte Correcional do Tribunal do Sena, em Paris, em fevereiro de 1857. “Madame Bovary sou eu” disse Gustave Flaubert quando lhe perguntaram quem teria sido o modelo da sua personagem, durante o seu julgamento, em 1856.

Mestre com as palavras o autor foi minucioso nas descrições das personagens. Para cada um dos personagens teve o cuidado de constituir uma ficha médica, relacionando-se a seus antecedentes hereditários e às manifestações de seu temperamento. A protagonista, Emma, por exemplo é tão complexa e tão bem construída que o leitor tem a impressão que a conhece intimamente. Através de Emma, Flaubert provou que nem toda heroína é perfeita e nem vem acompanhada de histórias felizes. Com uma excessiva preocupação com a forma da escrita e com o significado das palavras, Flaubert mudou a forma da estrutura dos romances mundiais, criando narrativas claras e objetivas.

“A mulher de trinta anos” de Balzac tinha todos os requisitos para ser o marco inicial do realismo francês, mas Gustave Flaubert publicou “Madame Bovary” e mudou o cenário da literatura francesa. Por várias vezes encontramos traços marcantes das narrativas de Balzac e isso se dá pelo fato de Flaubert ter sido um grande admirador da literatura do autor. Porém, enquanto Balzac segue uma linha mais clássica, Flaubert procura proporcionar uma leitura mais clara e simples.

Algo relevante nessa obra são as ironias do autor que só são entendidas pelas leituras das notas de rodapé. O sentido das ironias de Flaubert é mais evidente no texto original, que é quase imperceptível no português. Por isso é tão importante ler as notas de rodapé e explicações da obra que variam em cada tradução.

Afirmar que Flaubert defende o adultério é o mesmo que dizer que não entendeu nenhuma das mensagens que o autor deixou. Pelo contrário, os casos de Emma foram descritos como conflitos psicológicos entre o sonho e realidade. Madame Bovary é uma obra sofisticada, objetiva e audaciosa que leva o leitor à reflexões profundas sobre o que é ser feliz e a busca incessante pelo sentimento.

Otto Maria Carpeaux, em seu ensaio sobre o romance, diz: “…com efeito,embora o romancista desprezasse sua personagem, sofreu com ela, contou-lhe a história.O enredo, de tanta simplicidade, desbordou. Flaubert, grande artista, teve o trabalho imenso para refreá-lo.”

Madame Bovary é uma obra de arte transformada em livro. Um grande livro!

Imagem:Google

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