Crítica social e a sagração da estética: anotações sobre o emparedado Cruz & Souza.

Texto de Nuno G.

Antes das vanguardas instituírem o manifesto como gênero literário e do modernismo triunfar e estabelecer sua interpretação sobre a literatura brasileira do século XIX, o poeta Cruz & Souza havia escrito uma das prosas poéticas mais inventivas de que se tem notícia: Emparedado. Nesse texto a condenação cabal do racismo, de suas legitimações científicas, da perversidade de seus estigmas e do seu poder de hierarquizar e classificar os indivíduos no interior da ordem social se realiza por meio de imagens poéticas de rara beleza organizadas por uma intuição aguçada e consciente do seu objetivo fundamental: consagrar a estética e condenar a racionalidade colonialista.

No Emparedado encontra-se também a reividicação dos sentidos e dos sentimentos como fontes autênticas do fazer poético e matéria-prima da espiritualidade estética proposta pelo simbolista da ilha do desterro. A sucessão alucinatória de símbolos vai esboçando uma cartografia do repertório que compõe o imaginário de uma verdadeira religião estética que se contrapõe à cegueira de uma ciência, de uma arte e de uma sociedade impregnada de preconceitos.

O que se lê é a rebelião de um espírito, profundamente erudito e inclinado à criação, contra a sociedade que o emparedou, que negou seu direito mais fundamental: o de ser reconhecido pelo que se é. A invocação profética de um Dante negro contrastada em tom polêmico contra outros rebelados que, aos olhos do poeta, não passavam de oportunistas em busca de um lugar ao sol na politicasinha engenhosa de medíocres, de estreitos, de tacanhos, de perfeitos imbecilisados ou cynicos, que faziam da Arte um jogo capcioso, maneiroso, para arranjar relações e prestígio no meio.

Outro recurso utilizado de forma magistral por Cruz & Souza é o de dar voz ao acusador, explicitando assim a vileza e a fraqueza de seus argumentos – a inconsistência dos tijolos das paredes que constrói – e termina por traçar uma breve e densa etnografia da política da arte de seu tempo, descrevendo as regras e as estratégias escusas que regem a dinâmica do universo cultural e artístico onde está inserido.

A linguagem do emparedado causa estranheza e sedução, envolve o leitor numa atmosfera de excessivas brumas e o imerge numa atmosfera asfixiante. Ódio, desespero, angústia e uma fé inexorável na poesia como antídoto capaz de reconciliar forma e valor e substituir uma religião, uma arte e uma ciência desacreditadas por sua aliança espúria com o regime social de exclusão e injustiça. O simbolismo em Cruz & Souza nunca foi reprodução automática e irrefletida dos seus homônimos dʼalém-mar.

Sua imersão na realidade histórica concreta e a particularidade de sua trajetória biográfica, marcadas pelo deslocamento radical de seu lugar social, o levaram a erigir um verdadeiro manifesto onde se conjuga com perfeição a denúncia social e a defesa de uma concepção sobre a forma, o valor e a função social do fazer artístico.

A primeira vez que me aproximei dessa catedral em chamas, que é como vejo a obra de Cruz & Souza, foi graças a um artigo de Bruno Tolentino, sobre Ana Cristina Cesar, intitulado A lorota de Ipanema. O subtítulo deste texto dizia: em pleno centenário da morte inescusável de Cruz e Souza, as miçangas confessionais de Ana C. ganham esquife de luxo como “literatura perene e de alta qualidade”.

Passados tantos anos sigo não tendo, sobre a poeta-suicida, opinião tão amarga quanto a do poeta da balada do cárcere; entretanto também sigo também pensando que o emparedado simbolista negro e desterrado não só é nosso contemporâneo como seu grito ainda tem muito a nos dizer sobre forma, valor e engajamento.

Sua concepção do Sonho segue sendo margem para o rio de nosso tempo e é nas margens que quase sempre florescem as pedras que iluminam. E se a luz dessas pedras ofusca os falsos brilhantes que por aí insistem é por que entre a experiência da ferida e a catedral em chamas existe um longo percurso de elaboração que faz da Arte o elo entre o homem e o Sonho: e não as mistificações fáceis que abundam nas esquinas.

Imagem: Pexels

 

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