Amores deletérios

Por Juliene Lima

À noite eu fechava as janelas do meu quarto e ia à porta várias vezes certificar-me se estava bem trancada. Tomada pelo medo da sua iminente visita eu apaga as luzes e fazia de tudo para que eu adormecesse. Para que meus pensamentos não me roubem a paz que é usurpada com a sua visita. Nenhum lugar é seguro à noite.  Eu temia ver seus olhos flamejantes em meio a escuridão. São eles que ainda temo; eu tentava fugir desse meu carrasco. Eu não encarava o escuro para não vislumbrar teu vulto fantasmagórico na penumbra. Se o via, corria ao seu encontro e meus braços, na presunção de tê-lo, abraçavam o vazio.

O espaço vão é o que eu sempre tive de ti, mas nunca aceitei. Tua figura foi manipulação da minha mente na busca por um depósito de sentimentos ternos. Eu precisava de alguém para depositar o meu amor; precisava de um destinatário para as cartas e poemas; eu precisava dar corpo às melodias da canção. Eu te usei como rota de fuga da solidão. Eu te usei.

Eu tomei tua imagem como referência. Bradei teu nome e o amaldiçoei. Eu te matei tantas vezes em pensamento e te fiz meu companheiro na solidão. Eu queria satisfazer os meus desejos; preencher os hiatos de minha alma insatisfeita.

Infelizmente tu percebeste os meus planos egoístas e rechaçou-os. Eu dizia não ser digna do teu amor e não sou. Não sou porque a minha loucura não pode te atingir. Ninguém pode nutrir essa vaidade mórbida que há em mim. A distância te protegeu dos meus sortilégios; dos meus planos indecorosos. Em contrapartida, criou esse monstro obsessivo que vive em baixo da minha pele e, com uma fome insaciável, corroeu as minhas vísceras e bebeu o meu sangue.

Não sinto remorso por te querer como meu objeto; não sinto sequer vexada por admitir que tua felicidade longe de mim é incômoda. Eu me arrasto atrás de ti, mesmo sem condições de sobrevivência, e afirmo convicta, nessas situações, que eu não tenho o mínimo de amor próprio, não me auto compadeço. Não se aproxime. Mantenha distância da minha pseudo-ingenuidade. Eu sou uma farsa, perigo para nós. E tua presença intensifica a minha maldade.

Declaro a minha loucura, já detenho-me no impulso de fechar as portas e janelas. Ao contrário dantes, agora deixo-as abertas e fico à tua espera. Investirei contra teu vulto sacrossanto; trucidarei tua imagem; sentirei teu sangue vertendo no meu rosto.

É disso que preciso: transfundir teu sangue para as minhas veias. Ficaremos condenados a um mesmo corpo. Não terás mais chances de fugir de mim, pois estarás regando as minhas veias. Indivisíveis na substância.

O meu egoísmo não permitirá que continues a viver se eu já morri há tanto tempo com a falta da tua servidão.
Houve uma grande necessidade de me adaptar, ao longo desses meses, a um mundo vazio, desprovido de beleza. Meus pés se acostumaram a pisar nas brasas, não queimam mais. Encontrei completude na vastidão vazia que em mim se fez, meus ombros alargaram-se para aguentar o peso do amor negado que eu trouxe quando fui exilada do teu mundo.

Não quero me arriscar  a invadir outro mundo.

Esgotou-se a paciência para descodificar os enigmas de outrem, mergulhar nos mistérios da alma de outro ser. Prefiro agarrar-me ao que já me é sabido e, mesmo que eu saiba pouco, é o bastante para ficar.

Não quero cometer pecados novos, quero persistir nos crimes contigo. Eu quero permanecer na iminência da tua chegada. Já conheço as tuas armas e os teus charmes, o gosto do teu suor e teus caminhos íngremes. Tu foste a cobaia para o meu ensaio macabro, intérprete do meu caos.

Eu já não sei viver de outra forma que não esta. Eu gosto desse sufoco, da nostalgia, dos sentimentos pútridos e das memórias fragmentadas.

Faço orgia com a minha dor; tenho orgasmos com a tua ausência.

Nada mais pode me ferir.

Tu não podes mais me machucar, já senti todas as dores; já cheguei a exaustão do sofrimento; atingi o meu extremo da insanidade. Aprendi a ser brisa, mar, tempestade… Em qualquer coisa me transformo para combater a tua falta e as agressões que ela me causa incansável e irremediavelmente.

Imagem: Pexels.

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